No primeiro dia do ano de 1888, Jesus ainda me presenteou com sua cruz, mas dessa vez carreguei-a sozinha, pois era tanto mais dolorosa quanto incompreendida... Uma carta de Paulina veio me informar que a resposta de Sua Excelência tinha chegado dia 28, festa dos santos Inocentes, mas que não a comunicou para mim por ter decidido que meu ingresso só se daria depois da quaresma. Não pude segurar as lágrimas com a idéia de tão longa espera. Essa provação teve para mim um caráter muito peculiar: via meus laços com o mundo rompidos e a arca santa recusando a entrada para sua pobre pombinha... Quero acreditar que devo ter parecido manhosa por não aceitar alegremente meus três meses de exílio, mas creio também que, sem deixar transparecer, essa provação foi muito grande e me fez crescer muito no abandono e nas outras virtudes. Como passaram esses três meses tão ricos de graças para minha alma?... Primeiro, ocorreu-me a idéia de não me constranger a levar uma vida tão bem regrada como de costume; mas logo compreendi o valor do tempo que me estava sendo oferecido e resolvi entregar-me, mais do que nunca, a uma vida séria e mortificada. Quando digo mortificada, não é para fazer crer que eu fazia penitências, ai! nunca fiz, longe de parecer com as belas almas que desde a infância praticavam toda espécie de mortificações, não sentia atrações por elas. Sem dúvida, isto decorria da minha covardia, pois podia, com Celina, encontrar mil pequenas invenções para me fazer sofrer; em vez disso, sempre me deixei mimar e cevar como um passarinho que não precisa fazer penitência... Minhas mortificações consistiam em refrear minha vontade, sempre prestes a se impor, em reprimir uma palavra de réplica, em prestar pequenos serviços sem retribuição, em não me encostar quando sentada etc. etc... Foi pela prática desses nadas que me preparei para ser a noiva de Jesus e não posso dizer o quanto essa espera deixou em mim doces lembranças... Três meses passam muito depressa e, enfim, chegou o momento tão desejado. Escolheu-se para meu ingresso a segunda-feira, 9 de abril, dia em que o Carmelo celebrava a festa da Anunciação, adiada por causa da quaresma. Na véspera, a família toda reuniu-se em volta da mesa a que me sentava pela última vez. Ah! como são dilacerantes essas reuniões íntimas!... quando o que se quer é ser esquecido, prodigalizam-se carícias, e as mais carinhosas palavras fazem sentir o sacrifício da separação... Meu Rei querido quase não falava, mas seu olhar fixava-se em mim com amor... Minha tia chorava de vez em quando e meu tio fazia-me mil elogios afetuosos. Joana e Maria também se esmeravam em delicadezas, sobretudo Maria, que puxando-me à parte, me pediu
Informações adicionais serão incluídas em breve.