Esperava que papai fosse falar, mas disse-me para explicar pessoalmente a Sua Excelência a finalidade da nossa visita; o que fiz o mais eloqüentemente possível. Acostumado com a eloqüência, Sua Grandeza não pareceu comovido com meu arrazoado. Uma palavra favorável do padre superior teria servido melhor a minha causa, infelizmente não dispunha dela e sua oposição não intercedia a meu favor. Sua Excelência perguntou-me se havia muito tempo que eu desejava ingressar no Carmelo: "Oh, sim, Excelência! Muito tempo..." . "Vejamos", interveio, rindo, o padre Révérony, "podeis dizer que faz 15 anos que tendes esse desejo." "É verdade", respondi sorrindo também, "mas não há muito que retirar, pois desejo fazer-me religiosa desde o despertar da minha razão e desejei o Carmelo logo que o conheci bem, pois nessa ordem achava que todas as aspirações da minha alma seriam satisfeitas." Não sei, Madre, se foram exatamente essas as minhas palavras, creio que eram ditas de forma ainda pior, mas, enfim, o sentido era este. Pensando agradar a papai, Sua Excelência tentou fazer-me ficar ainda alguns anos junto dele. Ficou um pouco surpreso e edificado vendo-o tomar meu partido, intercedendo para eu obter a permissão de levantar vôo aos 15 anos. Porém, tudo foi inútil. Disse que antes de decidir era indispensável uma conversa com o Superior do Carmelo. Nada podia ouvir que me causasse maior aflição, pois conhecia a oposição formal do nosso padre. Sem levar em conta a recomendação do padre Révérony, fiz mais do que mostrar diamantes a Sua Excelência, dei alguns a ele!... Vi que ficou emocionado; pegando-me pelo pescoço, apoiava minha cabeça no ombro dele e me fazia carícias como nunca, ao que parece, alguém recebera dele. Disse-me que nem tudo estava perdido, que ficava muito contente em eu fazer a viagem a Roma para firmar minha vocação e que em vez de chorar devia alegrar-me. Acrescentou que, na semana seguinte, devendo ir a Lisieux, falaria de mim com o pároco de São Tiago e que, certamente, eu receberia resposta dele na Itália. Compreendi ser inútil insistir mais, aliás nada mais tinha a dizer, tinha esgotado todos os recursos da minha eloqüência. Sua Excelência acompanhou-nos até o jardim. Papai o divertiu muito quando lhe disse que, para parecer mais velha, eu tinha levantado meu cabelo. Isso não foi esquecido, pois Sua Excelência não fala da sua "filhinha" sem contar a história dos cabelos... O padre Révérony quis acompanhar-nos até a extremidade do jardim do bispado; disse a papai que nunca vira coisa igual: "Um pai tão disposto a dar sua filha a Deus quanto esta em se oferecer!"
Informações adicionais serão incluídas em breve.