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História de uma Alma

Santa Teresinha do Menino Jesus (Tradução de 1906)

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Por já não contar com Celina Maudelonde que a levava a jogos comuns, deixava-me livre escolha, e eu escolhia então um jogo inteiramente novo. Maria e Teresa passam a ser duas solitárias, que não dispunham senão de uma mísera choupana, de um pequeno trigal, e de alguns legumes para cultivar. A vida delas corria numa contemplação contínua; quer dizer, uma das solitárias substituía a outra na oração quando era preciso cuidar da vida ativa. Tudo se fazia num acordo, num silêncio, em moldes tão religiosos, que raiava à perfeição. Quando titia vinha buscarnos a passeio, nosso jogo continuava até na rua. As duas solitárias rezavam juntas o terço, valendo-se dos dedos, a fim de não exibir sua devoção ao público indiscreto. Um dia, entretanto, a mais jovem solitária distraiu-se. Tendo recebido um bolo para o lanche, antes de comer fez um grande sinal-da-cruz, o que provocou o riso de todos os profanos do século... Maria e eu tínhamos sempre os mesmos palpites. Os próprios gostos afinavam-se tão harmoniosamente que, certa vez, nossa união de vontades passou da conta. Ao voltarmos uma tarde da Abadia, disse à Maria: "Conduze-me, que vou fechar os olhos". - "Eu também quero fechá-los", respondeu-me. Dito e feito. Sem discutir, cada qual pôs em obra sua vontade... Estávamos na calçada, não havíamos de temer os carros. Depois de passear assim por alguns minutos, tendo apreciado as delícias de andar sem ver, as duas tontinhas caíram juntas sobre umas caixas colocadas à porta de uma loja. Melhor, derrubaram-nas. Muito encolerizado, saiu o negociante para pegar sua mercadoria. As duas ceguinhas voluntárias se levantaram por si mesmas em boas condições, e corriam a passos largos, com olhos esbugalhados, enquanto ouviam as justas reprimendas de Joana, que ficara tão zangada quanto o negociante!... Por isso, para nos punir, resolveu separar-nos uma da outra. E daquele dia em diante Maria e Celina iam juntas, enquanto eu caminhava com Joana. Isto pôs fim à nossa grande união de vontade. Não foi um mal para as mais velhas, que nunca entravam em acordo e discutiam durante todo o trajeto do caminho. Desta forma a paz foi completa. Nada disse ainda a respeito do meu relacionamento íntimo com Celina. Oh! se fosse preciso narrar tudo, não acabaria nunca... Em Lisieux, inverteram-se os papéis. Celina tornara-se uma criança terrivelmente arteira e buliçosa, enquanto Teresa já não passava de uma menininha muito tratável, mas choramingas a mais não poder... Isto não impedia que Celina e Teresa crescessem cada vez mais em sua mútua afeição. De vez em quando, havia algumas pequenas discussões, sem maiores conseqüências, e no fundo elas sempre se entendiam.

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