ao internato era a mais adiantada das crianças de minha idade. Entrei em classe de alunas todas superiores a mim em tamanho. Uma delas, com seus 13 a 14 anos, era pouco inteligente, mas sabia, contudo, impor-se às colegas e às próprias mestras. Vendo-me tão nova, quase sempre a primeira da classe e estimada de todas as religiosas, sentiu por certo inveja, cousa muito perdoável em aluna interna, e fez-me pagar de mil modos os meus pequenos bons êxitos... Com minha índole tímida e delicada, não sabia como defender-me e limitava-me a chorar sem dizer nada, não me queixando, nem sequer a vós, daquilo que padecia. Não tinha, contudo, bastante virtude para me sobrepor a tais misérias da vida, e meu pobre coraçãozinho sofria deveras. ... Por sorte minha, todas as tardes retornava ao lar paterno, e então meu coração expandia-se. Pulava aos joelhos do meu Rei, a quem dizia as notas que tinha recebido, e o seu beijo fazia-me esquecer todas as minhas mágoas... Com que alvoroço não anunciei o resultado de minha primeira composição (composição de História Sagrada). Faltoume um só ponto para a nota máxima, pois não soubera o nome do pai de Moisés. Era, portanto, a primeira e tirei uma bela condecoração de prata. Papai deu-me em recompensa uma linda moedinha de quatro soldos. Coloquei-a num estojo que ficou destinado a receber nova moeda, sempre da mesma importância, quase todas as quinta-feiras... (Do mesmo estojo ia tirar, quando em algumas festas queria contribuir do meu bolso na coleta de esmolas, quer para a propagação da fé, quer para outras obras congêneres). Encantada com o bom êxito de sua pupila, Paulina deu-lhe de presente um lindo arco de brincar, com o fito de encorajá-la a continuar bem estudiosa. A pobrezinha tinha real necessidade das alegrias de família, sem as quais a vida de colégio lhe seria árdua demais. Quinta-feira de tarde, não havia aulas. Não era, porém, como as folgas dadas por Paulina. Não ficava no mirante com Papai. Tinha que brincar, não com minha Celina, o que me agradava, quando sozinha com ela, mas em companhia de minhas priminhas e das meninas Maudelonde. Era para mim verdadeira mortificação, pois não sabia brincar, como as demais crianças. Não era companheira agradável. No entanto, sem o conseguir, fazia todo o meu possível para imitar as outras. Sentia muito tédio, principalmente quando tinha que passar toda a tarde a dançar quadrilhas. A única cousa do meu gosto era ir ao Jardim da Estrela. Então, eu era a primeira em tudo, colhendo muitas flores, e, por saber encontrar as mais bonitas, , provocava a inveja de minhas coleguinhas... O que também me agradava, era ficar por acaso a sós com Mariazinha.
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