mármore perdeu seu peso, que as pétalas delicadas deslizam entre os dedos da criança, que o vento já começa a dispersá-las, a fazer flutuar o véu leve das viúvas e as fitas que adornam os cabelos das moças. Papai estava tão encantado quanto nós; na Suíça, sentiu cansaço, mas agora sua alegria havia voltado, gozava do belo espetáculo que contemplávamos, sua alma de artista manifestava-se nas expressões de fé e admiração que se estampavam no seu belo rosto. Um velho senhor (francês), que, sem dúvida, não tinha alma tão poética, olhava-nos de soslaio e dizia mal-humorado, embora parecendo lastimar não ser capaz de partilhar da nossa admiração: "Ah! como os franceses são entusiastas!" Creio que esse pobre senhor teria feito melhor ficando em casa, pois não pareceu gostar da viagem. Encontrava-se freqüentemente perto de nós e sempre ficava resmungando. Reclamava dos carros, dos hotéis, das pessoas, das cidades, enfim, de tudo... Com sua habitual grandeza de alma, papai procurava animá-lo, oferecia seu lugar etc... enfim, achava-se bem em qualquer lugar, sendo de um caráter totalmente oposto ao do seu desagradável vizinho... Ah! quantas pessoas diferentes vimos, como o estudo do mundo se faz interessante quando estamos prestes a deixá-lo!... Em Veneza, o cenário muda completamente. Em vez do ruído das grandes cidades, só se ouvem, no meio do silêncio, os gritos dos gondoleiros e o murmúrio da onda agitada pelos remos. Veneza não é desprovida de encantos, mas acho essa cidade triste. O palácio dos doges é esplêndido, porém também triste com seus vastos aposentos onde reinam o ouro, a madeira, os mais preciosos mármores e as pinturas dos maiores mestres. Há muito tempo que suas abóbadas sonoras deixaram de ouvir as vozes dos governadores que pronunciavam sentenças de vida e de morte nas salas que atravessamos... Os infelizes prisioneiros que mantinham nas masmorras e calabouços subterrâneos deixaram de sofrer... Ao visitar esses horrendos cárceres, reportava-me ao tempo dos mártires e desejei poder ficar, a fim de imitá-los!... Mas foi preciso sair logo e passar na ponte dos suspiros, assim chamada por causa dos suspiros de alívio dados pelos condenados por se verem livres do horror dos subterrâneos, aos quais preferiam a morte... Depois de Veneza, fomos a Pádua, onde veneramos a língua de santo Antônio, e a Bolonha, onde vimos santa Catarina, que conserva a impressão do beijo do Menino Jesus. Há muitos pormenores interessantes que eu poderia dar sobre cada cidade e sobre as mil pequenas circunstâncias particulares da nossa viagem, mas não teria fim, por isso só vou relatar os principais. Deixei Bolonha com satisfação. Essa cidade tornara-se insuportável para
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