ajudava a praticar a virtude. Era meu único oráculo. Sem dúvida, Paulina tinha ficado bem firme em meu coração, mas estava longe, muito longe de mim!... Sofri o martírio para me habituar a viver sem ela, por ver entre nós muros intransponíveis. Mas enfim acabei aceitando a triste realidade. Paulina estava perdida para mim, quase como se estivesse morta. Continuava a me amar, rezava por mim, mas aos meus olhos minha querida Paulina se tornara uma santa, que já não poderia compreender as coisas da terra; e as misérias de sua pobre Teresa, se as conhecesse, tê-la-iam espantado e impedido de amá-la tanto... Por outro lado, ainda se quisera confidenciar-lhe meus pensamentos, como o fazia nos Buissonnets, não teria possibilidade, porque os atendimentos no locutório eram somente para Maria. Celina e eu tínhamos permissão de chegar lá só no final, justamente o tempo necessário para nos deixar com o coração apertado... Assim não tinha na realidade senão Maria, que me era, por assim dizer, indispensável. Só a ela contava meus escrúpulos e era tão obediente que meu confessor nunca chegou a saber de minha desagradável doença. A ele dizia exatamente o número de pecados que Maria me autorizava confessar, nem um a mais. Por isso poderia ser tida como a alma menos escrupulosa da terra, embora o fosse até ao último grau... Maria sabia, por conseguinte, tudo o que se passava em minha alma. Sabia também dos meus desejos a respeito do Carmelo, e eu lhe queria tanto, que não podia viver sem ela. Titia convidava-nos todos os anos a irmos, uma por vez, à sua casa em Trouville. Gostava muito de ir lá, mas em companhia de Maria! Não a tendo comigo, ficava muito entediada. Uma vez, entretanto, senti-me satisfeita em Trouville. Foi no ano da viagem de Papai a Constantinopla. Para nos distrair um pouco, (pois estávamos desgostosas por saber Papai a tão grande distância), Maria mandou-nos, à Celina e a mim, passar quinze dias à beíra-mar. Tive ali muita distração, porque minha Celina estava comigo. Titia arranjava-nos todos os passatempos possíveis: montaria em jumentinho, pesca de langueirões etc... Era ainda muito criança, apesar dos meus doze anos e meio. Lembro-me de minha satisfação, quando punha as lindas fitas azuis de anil, que Titia me dera para os cabelos. Lembra-me, também, de ter confessado em Trouville até essa alegria infantil, que pareceu-me pecado... Uma tarde, fiz uma experiência que me surpreendeu bastante. - Maria (Guérin), que vivia quase sempre adoentada, choramingava de vez em quando. Titia então fazia-lhe carícias, dizia-lhe os nomes mais afetuosos, e minha querida priminha nem por isso parava de dizer, toda lacrimosa, que estava com dor de cabeça. Ora, eu que quase todos os dias também tinha dor de cabeça e nunca me queixava, quis uma tarde imitar Maria. Senti, pois, a obrigação de choramingar numa poltrona ao canto da sala. Joana e Titia logo se aproximaram de mim, perguntandome o que tinha. Respondi, igual à Maria: "Estou com dor de cabeça".
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