maior ainda de jaculatórias, que escrevestes para cada dia em meu livrinho, e tais atos de amor formavam os botões das flores... Toda semana, escrevíeis-me uma linda cartinha, que me enchia a alma de profundos pensamentos e me ajudava a praticar a virtude. Era um consolo para vossa pobre filhinha, que fazia tão grande sacrifício em se conformar com não ser, todas as tardes, preparada em vossos joelhos, como o fora sua querida Celina... No meu caso, era Maria que fazia as vezes de Paulina. Eu sentava nos joelhos dela, e nessa posição escutava com avidez o que me dizia. Parecia-me que todo o seu coração, tão grande, tão generoso, se transferia para dentro de mim. - Como guerreiros famosos ensinam aos filhos o traquejo das armas, assim também ela me falava dos combates da vida, do laurel outorgado aos vitoriosos... Maria falava-me ainda das imorredouras riquezas que são fáceis de juntar todos os dias, da infelicidade de passar ao largo, sem querer dar-se ao trabalho de estender a mão para as agarrar. Depois, mostrava-me o meio de ser santa pela fidelidade nas mínimas coisas. Deu-me o folheto "Sobre a renúncia", que eu meditava com toda a delícia ... Oh! como era eloqüente minha querida madrinha! Quisera que não fosse a única a ouvir-lhe os profundos ensinamentos. Sentia-me tão atingida, que em minha ingenuidade acreditava que os maiores pecadores teriam sido atingidos como eu, deixariam então suas riquezas caducas, e já não quereriam ganhar outras senão as provenientes do Céu... Nessa época, ninguém ainda me ensinara o modo de fazer oração, apesar da grande vontade que tinha de aprendê-lo. Como, porém, me achasse bastante piedosa, Maria só me deixava fazer minhas preces. Um dia, uma das minhas mestras da Abadia me perguntou o que fazia nos dias de folga, quando estava sozinha. Respondi-lhe que me punha atrás de minha cama num vão que ali havia, fácil para mim de fechar com o cortinado, e nesse lugar ficava a "pensar". Mas, em que pensáveis? perguntou-me. - Penso no Bom Deus, na vida... na ETERNIDADE, enfim, penso!... Muito se divertiu a boa religiosa à minha custa. Mais tarde, gostava de lembrar o tempo em que pensava, e perguntava-me se ainda me punha a pensar... Compreendo agora que, sem o saber fazia oração, e que o Bom Deus já me instruía em segredo. Depressa se passaram os três meses de preparação. Tive logo de entrar em retiro, e de ficar interna para esse fim, pernoitando na Abadia. Não consigo externar em palavras a suave recordação que o retiro me deixou. Francamente, se sofri muito como interna, fui amplamente recompensada pela felicidade inefável desses poucos dias passados à espera de Jesus... Não creio que se possa fruir tal alegria noutro lugar
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