Lembro-me também da viagem que fiz a Le Mans. Era a primeira vez que viajava de trem. Que alegria ver-me viajando sozinha com mamãe!... Porém, não sei mais por quê, pus-me a chorar e essa pobre mamãe só pôde apresentar à minha tia de Le Mans uma feiurinha rubra pelas lágrimas vertidas a caminho... Não conservei lembrança alguma do parlatório, só do momento em que minha tia me entregou um camundongo branco e uma cestinha de papel bristol cheia de bombons sobre os quais havia dois bonitos anéis de açúcar bem do tamanho do meu dedo; logo gritei: "Que bom! tem um anel para Celina". Mas que tristeza! Peguei minha cestinha pela alça, dei a outra mão a mamãe e partimos. Depois de alguns passos, olhei minha cestinha e vi que meus bombons estavam quase todos esparramados pela rua, como as pedras do pequeno polegar... Olhei com mais atenção e constatei que um dos preciosos anéis sofrera a sorte fatal dos bombons... Não tinha mais nada para dar a Celina!... nesse momento, minha dor explode, peço para voltar, mamãe não parece me dar atenção. Era demais. Aos gritos seguiram-se minhas lágrimas... Não conseguia compreender como ela não compartilhava da minha tristeza e isso aumentava muito a minha dor... Agora volto às cartas nas quais mamãe vos fala de Celina e de mim. É o melhor meio de que disponho para revelar-vos meu caráter. Eis um trecho no qual meus defeitos despontam com intenso brilho. "Eis que Celina brinca com a pequena de jogar cubos, brigam de vez em quando. Celina cede para ter uma pérola na sua coroa. Vejo-me obrigada a corrigir esse pobre bebê, que fica terrivelmente furioso quando as coisas não andam como ela quer e rola por terra como uma desesperada, acreditando que tudo está perdido. Há momentos em que é mais forte que ela, fica sufocada. É uma criança muito agitada, porém muito mimosa e muito inteligente, lembra-se de tudo". Estais vendo, Madre, como eu estava longe de ser uma menina sem defeitos! nem se podia dizer de mim "Que era boazinha quando dormia", pois de noite era ainda mais agitada que de dia, mandava para os ares todas as cobertas e (embora dormindo) dava cabeçadas na madeira da minha caminha; a dor me despertava e então dizia: "Mãe, bati-me!..." Essa pobre mãe era obrigada a levantar-se e constatava que, realmente, tinha galos na testa, que eu me batera. Cobria-me e voltava a deitar-se, mas depois de algum tempo eu recomeçava a me bater. Tanto que foram obrigados a me amarrar na minha cama. Todas as noites Celininha vinha amarrar as numerosas cordas destinadas a impedir o duendinho de se chocar e acordar mamãe. Esta medida deu
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