sonho que devo ter tido por volta dessa idade e que me calou profundamente na imaginação. Sonhei uma noite que saía a passear sozinha pelo jardim. Chegando ao pé dos degraus que precisava subir para ali chegar, estaquei tomada de pavor. Diante de mim, rente ao caramanchão, havia uma barrica de cal e sobre a barrica dançavam, com espantosa agilidade, dois medonhos diabinhos, não obstante os ferros de engomar que tinham nos pés. De chofre lançaram sobre mim seus olhares chamejantes, mas ao mesmo instante, parecendo muito mais assustados do que eu, precipitaram-se da barrica abaixo e foram esconder-se na rouparia que ficava defronte. Ao vê-los tão pouco valorosos, quis saber o que iriam fazer e acerquei-me da janela. Lá estavam os míseros diabinhos a correr por sobre as mesas, não sabendo o que fazer para se esquivarem do meu olhar. De vez em quando chegavam até a janela, e olhavam com um ar inquieto, se eu ainda estava lá e como sempre me avistassem, começavam a correr de novo como desatinados. - Sem dúvida, este sonho nada tem de extraordinário, acredito, no entanto, que o Bom Deus permitiu que guarde sua lembrança, a fim de me provar que uma alma em estado de graça nada deve temer dos demônios, que são uns poltrões, capazes de fugir diante do olhar de uma criança... Eis aí mais uma passagem que deparo nas cartas de mamãe. Minha pobre Mãezinha já pressentia o fim do seu desterro: "As duas meninas não me preocupam, estão tão bem todas as duas, são temperamentos primorosos, serão por certo boas criaturas. Maria e tu estareis em perfeitas condições de educá-las. Celina não comete jamais a mínima falta voluntária. A pequerrucha será boa também. Por todo o ouro do mundo não diria uma mentira; é de uma finura de espírito como jamais a observei em nenhuma de vós". "Estava ela outro dia na mercearia com Celina e Luísa. Falava de suas práticas e discutia fortemente com Celina. A senhora disse à Luísa: "Mas então o que quer ela dizer? quando brinca no jardim não se ouve falar senão de práticas. A Sra. Gaucherin mete a cabeça para fora da janela num esforço de entender o que significa essa altercação sobre práticas..." A coitada da pequena faz a nossa felicidade, vai ser boa, já se vê pelo indício. Só fala do Bom Deus, por nada no mundo deixaria de fazer suas orações. Gostaria que a visses recitar pequenas fábulas, nunca presenciei algo de tão gentil. Encontra por si mesma a interpretação e a tonalidade que é preciso dar, mas isto é sobretudo quando diz: - "Criancinha de cabeça loura, onde imaginas que está o Bom Deus?" Quando ela chega às palavras: - "Ele está lá no alto do Céu azul", volve o olhar para 'cima com uma expressão angélica. Tão belo é que a gente não se cansa de fazê-la recitar. Há em seu olhar algo de tão
celestial
que
nos
deixa
encantados!
."
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