enfim, não podendo planar como as águias, o passarinho ocupa-se com as bagatelas da terra. Após todas essas indelicadezas, em vez de esconder-se num cantinho para chorar sua miséria e morrer de arrependimento, o passarinho volta-se para seu bem-amado Sol, expõe suas asinhas molhadas aos seus raios, geme como a andorinha e no seu canto suave confidencia, relata detalhadamente suas infidelidades, pensando, no seu temerário abandono, adquirir mais poder, atrair mais fortemente o amor Daquele que não veio chamar os justos, mas os pecadores... Se o Astro Adorado permanece surdo aos chilreios plangentes da sua criaturinha, se continua encoberto... pois bem! a criaturinha permanece molhada, aceita ficar gelada e alegra-se por esse sofrimento que não deixa de merecer... Jesus! como teu passarinho está feliz por ser fraco e pequeno, o que seria dele se fosse grande?... Nunca se atreveria a ficar na tua presença, em dormitar diante de Ti... sim, é mais uma fraqueza do passarinho quando quer fixar o Sol divino e as nuvens o impedem de ver um raio sequer. Contra sua vontade, seus olhinhos se cerram, sua cabecinha se esconde sob sua asinha e o pobre serzinho adormece, crente ainda de que está fixando seu Astro querido. Com o despertar, não se perturba, seu coraçãozinho fica em paz, recomeça seu ofício de amor. Invoca os anjos e os santos que se elevam como águias para o foco devorador, objeto de seus anseios. Com pena do irmãozinho, as águias o protegem, o defendem e afugentam os abutres que querem devorá-lo. O passarinho não tem medo dos abutres, imagens dos demônios, não se destina a ser presa deles, mas sim da Águia que ele contempla no centro do Sol de Amor. Ó Verbo divino, és tu a Águia adorada que amo e que me atrai, és tu que correndo para a terra do exílio tens querido sofrer e morrer para lançar as almas no seio do Eterno Lar da Santíssima Trindade. És tu que, subindo para a inacessível Luz que de agora em diante será tua morada, ainda permaneces no vale de lágrimas, oculto sob a aparência de uma hóstia branca... Águia Eterna, queres alimentar-me com tua divina substância, eu, ser pobre e pequeno, que voltaria ao nada se teu divino olhar deixasse de me dar vida a cada instante... Ó Jesus! deixa-me no extremo da minha gratidão, deixa-me te dizer que teu amor vai até a loucura... Como queres que diante dessa loucura, meu coração deixe de se jogar em teus braços? Como pode minha confiança ter limites?... Ah! sei, para Ti, os santos cometeram loucuras também, fizeram grandes coisas, pois eram águias... Jesus sou pequena demais para fazer grandes coisas... e minha loucura pessoal é esperar que teu amor me aceite como vítima... Minha loucura consiste em suplicar às Águias, minhas irmãs, que consigam para mim o favor de voar para o Sol do Amor com as próprias asas da Águia divina...
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