Antes de deixar o mundo, Deus concedeu-me a graça de contemplar de perto almas de crianças; sendo a última da família, nunca tinha tido essa felicidade. Eis as tristes circunstâncias que me levaram a isso: uma pobre mulher, parente da nossa empregada, morreu jovem deixando três criancinhas; durante sua doença, guardamos em casa as duas meninas, tendo a mais velha apenas 6 anos. Cuidava delas o dia todo e era uma grande satisfação para mim ver com quanta candura acreditavam em tudo o que lhes dizia. É preciso que o santo batismo deposite nas almas um germe muito profundo das virtudes teologais para que se manifestem desde a infância e que a esperança dos bens futuros baste para fazer aceitar sacrifícios. Quando queria ver minhas duas meninas bem conciliadas, em vez de prometer brinquedos e bombons àquela que cederia em favor da outra, falava-lhes das recompensas eternas que o Menino Jesus daria no Céu às crianças bem comportadas. A mais velha, cuja razão começava a se desenvolver, olhava-me com olhos brilhantes de alegria, fazia-me mil perguntas gentis sobre o menino Jesus e seu belo Céu e prometia-me com entusiasmo ceder sempre em favor da irmã, dizendo que nunca na vida esqueceria o que lhe havia dito "a grande senhorita", pois era assim que me chamava... Vendo de perto essas almas inocentes, compreendi ser grande infelicidade não formá-las bem desde seu despertar, quando são como uma cera mole sobre a qual se pode depositar tanto as impressões das virtudes como do mal... compreendi o que Jesus disse no Evangelho: que seria melhor ser lançado ao mar do que escandalizar uma só dessas crianças. Ah! quantas almas chegariam à santidade se fossem bem dirigidas!... Sei que Deus não precisa de ninguém para realizar sua obra, mas assim como permite a um hábil jardineiro cultivar plantas raras e delicadas e lhe dá para isso a ciência necessária, reservando para si a tarefa de fecundar, assim também Jesus quer ser ajudado na sua divina cultura das almas. Que aconteceria se um jardineiro desajeitado não enxertasse direito suas plantas? Se não soubesse reconhecer a natureza de cada uma e quisesse fazer brotar rosas num pessegueiro?... Faria morrer a planta que, todavia, era boa e capaz de produzir frutos. Assim é que se deve reconhecer desde a infância o que Deus pede às almas e ajudar a ação da sua graça, sem nunca apressá-la nem retardála. Como os passarinhos aprendem a cantar escutando seus genitores, assim as crianças aprendem a ciência das virtudes, o canto sublime do Amor divino, junto às almas encarregadas de formá-las.
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