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História de uma Alma

Santa Teresinha do Menino Jesus (Tradução de 1906)

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quisera contar mil pequenos episódios desse gênero, que me acodem profusamente à memória... Ah! como poderia enumerar todos os carinhos que "Papai" prodigalizava à sua rainhazinha? Há cousas que o coração sente, mas que a palavra e a própria idéia não conseguem formular... Bonitos para mim eram os dias em que meu "rei querido" me levava à pescaria consigo. Tinha tanto amor ao campo, às flores e às aves! Tentava às vezes pescar com minha varinha, mas de preferência ia sentar sozinha na relva florida. Meus pensamentos aprofundavam-se bastante e, sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava em autêntica oração... Ouvia ruídos ao longe... O murmúrio do vento e até a música indecisa de soldados, cuja sonoridade me chegavam aos ouvidos, melancolizavam suavemente meu coração... A terra pareciame lugar de degredo, e eu sonhava com o Céu... A tarde passava rápida, e dentro em pouco era hora de regressar aos Buissonnets, Antes de partir, porém, tomava o lanche trazido no meu cestinho. Mudara de aspecto, a linda merenda com geléia de fruta que me tínheis preparado. Em lugar da cor ativa, já não via senão uma ligeira mancha cor de rosa, toda ressequida e amarfanhada... Então a terra se me apresentava mais tristonha ainda, e compenetrava-me de que só no Céu haverá alegria sem anuviamento. . . A propósito de nuvens, lembro-me de que um dia o formoso Céu azul campestre se anuviou e logo começou a zunir a tempestade. Os coriscos sulcavam as nuvens carregadas, e vi cair um raio a pouca distância. Longe de ficar com medo, extasiava-me, tendo a impressão de que o Bom Deus estava tão perto de mim! ... Papai não estava, de modo algum, tão contente como sua rainhazinha. Não que a tempestade lhe incutisse medo, mas porque o capim e os malmequeres (mais altos do que eu) brilhavam como pedrarias preciosas, tendo nós de atravessar vários vergéis antes de chegar a um caminho. E meu querido paizinho, temeroso que os aljôfares molhassem sua filhinha, tomou-a às costas, apesar da carga dos apetrechos de pesca. Nos passeios que fazia com ele, o papai gostava de me mandar entregar a esmola aos pobres que encontrássemos. Certo dia vimos um que se arrastava com dificuldade em muletas. Acerquei-me para lhe dar um óbolo. Mas, não se julgando bastante pobre a ponto de aceitar esmola, ele olhou-me com triste sorriso e não quis pegar o que lhe oferecia. Não consigo descrever o que se passou em meu coração. Quisera consolá-lo e reconfortá-lo. Em lugar disso, porém, julguei que o tinha magoado. O

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